Brincando com o Poder

Há 20 anos, estou dentro da Universidade sob diversas condições. Já fui aluno de graduação, mestrando (aqui e no exterior), doutorando (aqui e no exterior), professor horista, coordenador e professor de pós-graduação lato senso e pós-doutorando. Isso significa que já tenho alguma estrada (e observação participante) para apreciar e criticar os hábitos dessas instituições humanas, demasiadamente humanas. Como qualquer instituição, as universidades são compostas por seres humanos falhos, vaidosos, mas também generosos e brilhantes. O meu ponto é que há sempre grandes virtudes e enormes enganos.

Uma das práticas que observei durante todos esses anos dentro da universidade é um ritual que está tão entranhado na cultura universitária que raríssimas vezes, inclusive entre meus colegas, há algum tipo de questionamento sobre sua existência. O trote universitário repete-se com a regularidade de um relógio suíço e, apesar das repetidas advertências formais contra a prática, há uma cultura da permissividade, como se a sua existência fosse tão natural quanto o jogo do bicho ou o uso de Havaianas em aviões. É uma “não-questão”, para alguns talvez um incômodo que tem que ser tolerado sem maiores reflexões. (Muitos colegas, inclusive, tem a prática – por vezes incentivada pelas coordenações acadêmicas! – de “liberar” suas turmas para a prática do trote.)

Quero dizer que já tive tempo suficiente para pensar a respeito e, desde então assumi uma posição maximalista sobre o tema: a prática do trote, mesmo em suas versões mais light e “caridosas”, tem que ser banida e seus praticantes devem sofrer penalidades legais contra isso. Antes que me acusem de um radicalismo sem sentido, peço para que reflitam sobre o tema seriamente por alguns momentos.

O trote é, na sua essência, um exercício ritualístico do exercício do poder e da exposição de sua assimetria. Como cientista político, é impossível deixar de perceber a dinâmica. Há uma divisão baseada em antiguidade/idade/ressentimento que se afirma obrigando os calouros a se submeterem a penalidades. É isso. Mesmo que aqui algum crítico argumente que os calouros são livres para não participar, esse argumento é tão falacioso quanto o argumento liberal que diz o trabalhador “é livre” para procurar um emprego melhor se não está satisfeito. Há uma estrutura social que condiciona e constrange a ação dos atores, especialmente meninos e meninas jovens que ainda nem entendem o que é uma universidade e estão tentando “fazer parte” e se instituicionalizar. Recusar participar logo de cara é encarado como pirraça e como falta de sociabilidade, o que poucos estão preparados para assumir.

É preciso lembrar com toda a força que essa exibição de assimetria de poder acontece no Brasil e dentro do ambiente universitário, ainda extremamente marcado pela presença de uma elite social, econômica e política. É como se déssemos autorização para que um grupo específico exerça seu poder sem qualquer constrangimento, deixando vir à tona séculos de racismo, machismo, classismo, covardia, sadismo e violência que estavam reprimidos pela vida social “normal”. Lembro, inclusive, que isso acomete homens E mulheres, sem distinção aqui na ofensa aplicada. A lógica de que “a tradição deve ser mantida” se afirma exatamente nesses momentos, revelando perfeitamente a hierarquia social. Pois bem, encena-se, publicamente, um exercício de humilhação e submissão, que é mascarado pelos argumentos de que “gerariam coesão”, “aproximariam os alunos do curso”, “criaria um ambiente de coleguismo”. Aqui, é impossível não parar e rir tragicamente disso. Há centenas (talvez milhares) de outras maneiras de se gerar esses efeitos sem submeter outros a humilhações. Já experimentaram convidar alguém para conversar e tomar um chope?

A prática do trote é agressão pública e organizada. Não há como definir de outra maneira. Não há como dourar a pílula sem recair em argumentos que levam à suposta “diversão” ou “brincadeira”. Não é uma brincadeira e não pode continuar sendo tratada com tal. Em diversos lugares do país, a tortura, estupro e morte de calouros é prática disseminada e “tradicional”. Dá-se abertamente a oportunidade de exercer poder absoluto e, como dizia sabiamente Lorde Acton, esse é exercido absolutamente. Para que não pensem que essa é uma prática dos “interiores dos grotões não-civilizados”, basta ler a aterrorizante e brutal reportagem da Revista Piauí de fevereiro de 2015 sobre os trotes na tradicionalíssima Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. O “monstro” é o colega ao lado, futuro médico, prestigiado doutor, salvador de vidas. As vítimas são caladas pela violência física e moral. E o pacto de silêncio é o mesmo que depois cria uma cultura de corporativismo na profissão. Ou será que as duas coisas são completamente separadas no mundo mágico do exercício de uma profissão santificada pela sociedade?

Há um pacto de conivência que precisa ser rompido e mais pessoas devem se manifestar a respeito. Não há nada que redima um trote. Nada. O trote deve ser visto e identificado como aquilo que realmente é: uma prática brutal, selvagem e grotesca, exercida em um ambiente que, mais do que qualquer outro, deve primar pela troca igualitária de ideias e repeito profundo pelo outro. A universidade ainda é um dos poucos ambientes de liberdade de pensamento que relutam em existir em uma sociedade cada vez mais intolerante. Essa não é uma questão menor: o trote reflete um micro-cosmo de problemas brasileiros que é cristalizado em uma prática que é vista como inofensiva ou desimportante. Já passamos da hora de tornar adulta a discussão e deixarmos de ser condescendentes com a intolerância e o exercício sádico do poder.

Há alguns anos, vem havendo a nobre tentativa de se transformar a natureza do trote, fazendo com que os calouros doem alimentos ou doem para bancos de sangue. Não vejo por que ligar isso aos trotes e práticas criminosas. É só organizar campanhas de início do semestre e chamar toda a comunidade universitária a se engajar. Tampouco compro o argumento de que deva ser compulsório. Há pessoas que não querem doar e isso é um problema delas.

De qualquer modo, ingenuamente, gosto de pensar que, em alguns anos, possamos dar aos nossos alunos (que são, no fim, a razão pela qual a máquina continua) a proteção que merecem onde isso mais importa: em suas integridades física e mental, assim como o ambiente comunitário no qual, com muito custo pessoal, tiveram a chance de ingressar. Não é pedir muito. É apenas o correto.

 
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